segunda-feira, 15 de junho de 2009

E a manhã nasceu azul... (parte II)

Outro dia Betinha me apareceu de madrugada com um copo dágua, um espelho e um broto de flor. Está assim há meses, disse, num lamento, para em seguida perguntar: morre o que não vive? E eu lá sei?, respondi, pegando o espelho e tentando localizar o cabelo que espetava meu dedo quando eu alisava o queixo. Eu hein, Betinha, você parece uma assombração. Lá isso são horas? Mas ela já estava sentada com os pés em cima da poltrona, naquela posição que ela gostava de ficar e que eu não sei descrever, mas vou tentar. Ela estava sentada com os pés em cima da poltrona, as pernas dobradas para o lado, a ponta do roupão deixando desprotegidos apenas os dedos. Me aproximei e ela continuou olhando-os, vidrada. Logo vi: outro ataque de sonambulis... quero confessar uma coisa, ela disse, quase gritando, sem tirar os olhos do dedão do pé: a melancolia é o mais longe que consigo ficar da depressão e talvez o mais perto que tenha chegado de mim mesma. Colocou o copo dágua e o broto em cima da mesinha de cabeceira. Outra: quero me livrar dessa minha mania de lustrar as bordas com o único objetivo de deixar eternamente o núcleo intacto. Quero me livrar dessa mania de medo. Descobri que é na verticalidade de um mergulho que a água respinga. É nessa verticalidade que a onda se forma. Olhou para mim como se eu fosse o seu dedão do pé, levantou-se, abriu a porta e foi embora. E a manhã nasceu azul.

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