sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A mesma noite (parte IV)

“Uma dor que a urgisse como o sal da água benta”. Betinha invade a minha sala com um pedaço de papel na mão, recitando aquela frase que havia encontrado anotada num pedaço de papel caído embaixo da cama. Como boa detetive que sou, disse, sei que isso só pode ter sido deixado ali na noite passada, e me passou o papel. Vi que a letra era dela e perguntei se ela não a reconhecia. Mas é claro, é a minha letra, espantou-se com a minha pergunta, como se fosse a coisa mais normal do mundo uma pessoa invadir a sua casa lendo uma frase sem sentido escrita num pedaço de papel, conjeturando sobre quando aquilo teria sido deixado embaixo de sua cama mesmo sabendo que a letra era dela própria. E me lembrei também com o que eu sonhei, ela falou, vigiando com o canto do olho a minha reação. Betinha tinha um caderno de sonhos guardado a sete chaves. Contava que tinha, só de sonho, mais de setenta páginas digitadas. Noite passada sonhei que o mar havia transbordado e me levado junto. Um turbilhonamento leve, de maré baixa, de preenchimento, me envolveu e foi então que escrevi: “... uma dor que a urgisse como o sal da água benta”. Ela me pediu papel e caneta e corrigiu: “... uma dor que a ungisse como o sal da água benta”. Acho que assim fica melhor. O que acha? Antes de eu conseguir achar alguma coisa, ela toma o papel da minha mão e continua: “À noite todos os gatos são gatos mesmo. Sou preguiçosa e às vezes preciso de um beliscão”.