sexta-feira, 26 de março de 2010

AMOR (IN)CONDICIONAL

.
...e se eu parasse de te procurar pelos cantos, de esperar que você ligue, de tentar entender o que significa esse silêncio que jorra da sua boca? E se eu me cansasse de tudo que você não me disse, das frases interrompidas no meio, do seu jeito de passar manteiga no pão? E se eu deixasse de tentar te entender e me pegasse de frente para o espelho, aliviada por não te ter? E se eu, por um momento apenas, sentisse que não te amo, não te quero, que não estou nem aí para o que você pensa, para como você passou o dia ou se você está vivo ou morto? E se eu, num arroubo de violência e vingança, arrancasse seus dedos no momento exato em que caminhassem pelas minhas costas?

...e se eu começasse a te achar pelos cantos, entender o seu silêncio, ficar curiosa por tudo que não foi dito? E se eu, me olhando no espelho embaçado do banheiro, conseguisse enfim te decifrar? E se eu te amasse como se ama um filho, um amante, um amigo? Se te desejasse como bicho, vasculhasse o seu corpo em busca de marcas e gostos, esfregasse o seu rosto até a sua barba mal feita ferir o meu?

...e se eu um dia aparecesse diferente, sem os jeans surrados, de salto alto, cabelos escovados e unhas pintadas de vermelho? E se eu queimasse os livros que lemos juntos, as cartas que nunca te mandei, apagasse os seus passos da cozinha? E se eu parasse de te esperar chegar junto com o cheiro da chuva?

...e se eu desistisse de você, não te reconhecesse, não me precipitasse, não te procurasse?
...e se eu conseguisse apagar de mim as memórias de você?
...e se eu não te fantasiasse?

Será que eu continuaria te querendo?
.
.