quarta-feira, 6 de julho de 2011

É A PAIXÃO, FANTASIA?

Cada vez que ouço a campainha tocar penso "que bom se fosse você". Larguei tudo e peguei o primeiro avião só pra vir te encontrar, você diria. Eu ficaria estupefata e feliz, te mandaria entrar e arrancaria as suas roupas, peça por peça? não, todas de uma vez, o paletó, a gravata, as calças, cueca, meias, sapatos, não nessa ordem porque na verdade o que menos importaria seria a ordem, e te comeria no chão da sala, com a sofreguidão da primeira vez. E a saudade da segunda. Me apaixonei pela impossibilidade de te ter pra mim. Nada, ou quase nada, temos em comum, a não ser o gosto pelo sexo sem pudores. Quero purgar você de mim, mas, veja você, ontem me peguei considerando a possibilidade de te mandar uma carta pra saber como você está, por onde anda, se a vida está boa e, principalmente, pra tentar descobrir, nas entrelinhas da resposta que você não me mandaria, se você, nem que seja um pouquinho, naquelas horas de solidão, de pau duro, de bebedeira de fim de noite, se você pelo menos nessas horas pensa em mim. E imagino você em casa com a mulher, que você come por necessidade e obrigação, com os filhos, que você ama porque é isso que todos esperam que sinta, sentados distraidamente em volta de uma grande mesa conversando sobre o dia que passou. E sinto um carinho tão grande por você, uma imensa e tão correta e indefinida ternura, como se olhasse uma criança se distraindo na caixa de areia da praça. E me surpreendo invejando seu sincero amor de obrigação.

Te esquecer? Não quero. É gostoso pensar em você. Além do mais, paixões me distraem. Esta carta é só pra te purgar hoje de mim. Amanhã acordo apaixonada de novo.