sexta-feira, 1 de maio de 2009

O PIANISTA

Meu corpo começou a urrar dentro do smoking e o ar condicionado não era suficiente para interromper o suor que já ia ensopando o colarinho e as costas da camisa. Interrompi o concerto no começo do último movimento, tirei o paletó, afrouxei a gravata, perguntei se a platéia estava com calor também. Não esperava que houvesse resposta. Tampouco a tentativa de minimizar o constrangimento deu certo. Na terceira fila, no lugar onde, em todos os concertos, sempre se sentava, minha mulher controlava-se para não explodir em lágrimas. Deu certo: antes de se levantar, vi apenas uma escorrendo de seus olhos.

Eu sabia que algo estava errado, mas levei algum tempo até perceber que aquela já não era mais a vida que eu queria pra mim. O narrador da minha história havia me rebaixado a um papel menor e me transformado num mero coadjuvante. Eu não queria mais nada daquilo. Eu amava a música e queria tocar para as crianças, os velhos, os pobres, para todos aqueles que gostassem da música por ela mesma e não pelo glamour que envolvia as apresentações, sempre cheias de gente importante e influente.

O que havia de errado com a minha felicidade? Era um pensamento paradoxal, eu sabia, mas não foram poucas as manhãs em que eu parava de ensaiar, sentado ao piano de cauda no meio da sala com vista para a mata atlântica, um cheiro gostoso de café fresquinho vindo da cozinha planejada, para me perguntar isso. Eu tinha tudo o que um homem poderia acreditar como essencial para ser feliz, mas eu não era. O que havia de errado? E onde estava o erro?

No dia do concerto, descobri depois, o que eu decidi fazer foi tomar de volta a caneta daquele narrador ensandecido, que parecia se divertir organizando da forma mais idiota os elementos da minha vida. No roteiro havia talento, amor, dinheiro, amizade, consideração, mas estava tudo mal arrumado, ocupando lugares que não os que, só agora eu sabia, deveriam ocupar. Mas, onde eram esses lugares? Em mim, mas onde exatamente?

A cadeira vazia da terceira fila me desafiava a manter o equilíbrio necessário para concluir a apresentação e testava a força da decisão de ser aquela a última que eu faria naquele teatro, para uma plateia que me olhava como se eu fosse um animal num zoológico. Aplaudiram quando anunciei, depois de tirar os sapatos, que concluiria o concerto. Queriam me ouvir tocar ou estavam ali apenas para cumprir o que se esperava de uma aristocracia tardia? Prestavam atenção às notas que saíam do piano, dos violinos, dos violoncelos ou estavam apenas se fazendo notar pelo seleto grupo que podia comprar o ingresso para um concerto com Rodrigo Calvaccio ao piano? Que sociedade é aquela, em que a felicidade é tão maior quanto menor a quantidade de pessoas com as quais compartilhá-la? Que prazer é esse, medido por índices tão aquém dos que eu sempre acreditei ser os que realmente me trariam a felicidade? Eu não tinha paz de espírito. Meu corpo, apesar de jovem, curvava-se com o peso daquelas mal ajambradas idéias de prazer.

Um comentário:

Anônimo disse...

SHOW ANA, eu vi esse filme. :) bjs
Ed Sartori