quarta-feira, 6 de julho de 2011

É A PAIXÃO, FANTASIA?

Cada vez que ouço a campainha tocar penso "que bom se fosse você". Larguei tudo e peguei o primeiro avião só pra vir te encontrar, você diria. Eu ficaria estupefata e feliz, te mandaria entrar e arrancaria as suas roupas, peça por peça? não, todas de uma vez, o paletó, a gravata, as calças, cueca, meias, sapatos, não nessa ordem porque na verdade o que menos importaria seria a ordem, e te comeria no chão da sala, com a sofreguidão da primeira vez. E a saudade da segunda. Me apaixonei pela impossibilidade de te ter pra mim. Nada, ou quase nada, temos em comum, a não ser o gosto pelo sexo sem pudores. Quero purgar você de mim, mas, veja você, ontem me peguei considerando a possibilidade de te mandar uma carta pra saber como você está, por onde anda, se a vida está boa e, principalmente, pra tentar descobrir, nas entrelinhas da resposta que você não me mandaria, se você, nem que seja um pouquinho, naquelas horas de solidão, de pau duro, de bebedeira de fim de noite, se você pelo menos nessas horas pensa em mim. E imagino você em casa com a mulher, que você come por necessidade e obrigação, com os filhos, que você ama porque é isso que todos esperam que sinta, sentados distraidamente em volta de uma grande mesa conversando sobre o dia que passou. E sinto um carinho tão grande por você, uma imensa e tão correta e indefinida ternura, como se olhasse uma criança se distraindo na caixa de areia da praça. E me surpreendo invejando seu sincero amor de obrigação.

Te esquecer? Não quero. É gostoso pensar em você. Além do mais, paixões me distraem. Esta carta é só pra te purgar hoje de mim. Amanhã acordo apaixonada de novo.

quarta-feira, 2 de março de 2011

HISTÓRIA DE AMOR E CARNAVAL NO BOTECO BARANGAL



Carnaval, ah, o carnaval! Delírio e desgraça. Quem nunca perdeu ou ganhou um amor durante o carnaval que atire a primeira lata de cerveja. Para mim, que eu já estou em ritmo de folia. O coração esquenta e lá vou eu, skindô skindô, pelas esquinas do Rio. E nessas andanças a gente vê é coisa, viu? Outro dia, num boteco ali na Cardeal Dom Sebastião Leme, no bairro de Fátima, o tempo fechou. Pelo que entendi, parece que Agenor tinha dado um perdido em Alice no dia anterior. Alice, que é esperta e sabe que a vingança é um prato que se come quente, acompanhado de uma cerveja bem gelada e de um cara mais gostoso do que o otário com quem você ainda estaria se ele não tivesse feito merda, logo conclamou Zito, pra deixar bem claro que com ela não, violão.
- Que merda é essa? Onde você vai? Volta, Alice! – esbravejava Agenor lá do fundo do bar.
- Voltar pra quê? Esse ano não vai ser igual àquele que passou, ah, não vai ser não!!!
- Vem, bagunça o meu coreto, vem satisfazer esta rola preguiçosa, vem que esse é bom, mas ninguém sabe, só você. Vem, sorri pra mim preu me lembrar que simpatia é quase amor, mesmo que você esteja me odiando agora. Eu sei, eu sei que o nosso romance anda meio morno, mas é que também a gente nem muda nem sai de cima, né? Eu sei, você tem razão, ontem eu cheguei em casa com o maior bafo da onça, mas Ih!, é carnaval, amor. Além disso, eu te avisei, lembra? Meu bem, volto já!!! Gritei lá do portão, mas você estava numa ressaca só, acho que nem me ouviu. Quem mandou? Meu amor, quem num guenta bebe água. Você me conhece, eu não posso ouvir uma banda passar que já quero ir atrás. Quem manda ficar em casa, enchendo a cara? Você concentra, concentra, mas não sai. Na hora agá, você rói a corda e diz: me deixa, quero ficar no meu kantinho. E pra mim carnaval é diversão, é brincadeira, é tão bom que se melhorar, afunda e eu quero é me acabar.
A essa altura do campeonato o bar inteiro já tinha parado o que estava fazendo para prestar atenção no Agenor. Aquilo ia dar forrobodó, ah, se ia! Um assunto prato cheio pro samba do bloquinho dos amigos que o grupo da mesa do fundo vinha tentando compor há duas semanas. Alice? Pediu uma gelada, a mais gelada que você tiver, Confete, que eu tô fervendo por dentro, e uma porção de azeitona sem caroço! Agenor? Coitado. Cheguei a sentir pena dele. Só não me rolaram lágrimas face abaixo porque o teor alcoólico ainda não dava pra isso. Num lamento, Agenor ainda implora.
-Vem meu bem! Você sabe que quando você me xupa mas não baba eu vivo o céu na terra. Faz isso comigo não. Vem, vem só pra ver o que vai dar.
Antes de se atracar com o Zito, um negão maravilhoso fantasiado de São Jorge, espada em riste, que vem encontrá-la na porta do bar, Alice manda pra Agenor um beijinho soprado com a pontinha do dedo. Cruel, cruel.
- Imaginou? Agora amassa – ordena Alice a Zito, que a essas alturas já segurava a nega pela cintura carregando ela num dois pra lá, dois pra cá tão suingado que derretia o coração das meninas ali presentes. O meu inclusive.
- Imprensa que eu gamo, sussurra Zito, tascando-lhe um beijo no pescoço de deixar o mais devasso da cardeal sem graça.
Agenor ainda pensou em colocar as barbas de molho, deixar a raiva passar. Carnaval é assim mesmo. O problema é que estava prestes a ter uma síncope e, se não reagisse, e rápido, era capaz de sofrer uma parada cardíaca ali mesmo. Não, não passaria o resto do carnaval num leito de hospital. Tampouco era a hora de dar a Zito o título de rival sem rival. Nem por Alice. Como tudo é desculpa pra beber, ele dá um gole na gelada, pra tomar coragem, e sai correndo na direção dos dois pombinhos tal qual uma besta descontrolada. Na porta do boteco ele tropeça, escorrega, mas não cai. Agenor alcança os dois bem na hora que Alice sussurra no ouvido de Zito: vem, meu bem, vem ni mim que eu sou facinha.
- A coisa tá preta pro teu lado, Zito! O negócio tá feio e teu nome tá no meio, cara!
- Calma, Agenor. Ninguém é de ninguém. Ainda mais no carnaval. Além do mais, eu to no recreio, rapaz.
Zito deu um último gole na cerveja e puxou Alice mais pra perto. Os amigos da esquina se aproximaram, divididos entre a turma do deixa disso:
- Toca pra subir, Agenor. Regula mas libera, cara. Carnaval é assim mesmo e você sabe disso. Ou pensa que ninguém te viu ontem, com um sorriso de criança estampado nessa cara sem vergonha depois que voltou da folia? Acho melhor tu ficar pianinho. Não mexe que fede, cara!
...e a turma do pode vir que tem:
- Agenor, se quiser a gente amassa esse negão, escangalha ele de vez. É tudo nosso, tamo junto nessa, camaradinha. O grupo é pequeno, mas vai crescer, é só você chamar. Se tu fô, eu vô.
Agenor, pobre Agenor. Zito tinha o dobro do tamanho dele, Alice pouco estava se incomodando com aquela cena, só tinha olhos pra espada do negão, e o bar inteiro parecia torcer pro pior acontecer. Agenor sentou-se na beira da calçada e … chorou. Chorou feito criança. Estava inconsolável.
- Antigamente era melhor. Ela ficava o carnaval todo quietinha, rezando, limpando a casa, cozinhando macarronada pra curar o meu porre, rezando ao pé da imagem e lustrando o suvaco do cristo. Eu vestia minha camisinha listrada, saía por aí e ela nem ligava. Chegava no dia seguinte e ela estava na maior alegria. Sem ressaca, porque naquele tempo ela não bebia. Não sei o que aconteceu. Esse ano a nêga desandou. Desde o início do carnaval que ela deita mas não dorme, fica que nem pipa avoada, só caminha pela casa, pra lá e pra cá, e não sossega enquanto o bloco não arrasta ela.
Alice, que não aguentava mais ouvir aquela lenga lenga, chegou cutucando atrás, pra ver se o cara se tocava:
- Agenor, tu só tá piorando as coisas, rapaz. Deixa a língua no varal que é a melhor coisa que tu faz. Chorando desse jeito tu até espanta neném. Não tem vergonha não? Se não aguenta, por que veio?
- Vim porque você não presta mas eu gosto de você, sua vaca!
Zito, que até agora só estava assistindo a cena, virou bicho.
- Tá na frente eu empurro! Sai todo mundo! Agora tu vai pedir desculpa pra minha mulher.
Lá de dentro do bar alguém grita:
- Confete, manda um chopp na pressão. Alta!, que a coisa aqui tá ficando quente!
Ah, chamar Alice de “minha mulher” foi a gota dágua. Agenor até hoje não sabe de onde tirou tanta força, mas o fato é que mandou um soco de direita tão bem mandadinho no meio do nariz do Zito que o negão cambaleou e caiu no chão. Foi um Deus nos acuda. O pessoal da mesa do fundo veio pra porta do boteco. Cachaça, mendigo conhecido da área, ordenava ao seu fiel companheiro: pega, Rex!, pega! mas Rex já é cachorro cansado e não tem forças nem pra correr atrás do próprio rabo. Um grupo de adolescentes gritava porrada! porrada! Lá dentro do bar Confete andava de um lado pro outro com um chapéu na mão, aos berros: façam suas apostas!
Façam suas apostas!
Alice? No meio da confusão apareceu um carinha fantasiado de JR Arruda, cheio de dinheiro falso enfiado em uma cueca maneira, com uma ideia na cabeça e uma câmera na mão, filmando o bafafá. Quando o cara viu Alice retratada nas lentes da sua câmera, implorou:
- Me beija, vai? Me beija que eu sou cineasta. Vem brincar comigo que se dé certo, a gente sai.
Agenor e Zito, atracados na calçada, só notaram o que estava acontecendo quando ouviram Alice gritando pras amigas da pracinha, de dentro de um fusquinha 1600:
- EMPURRA QUE PEGA!!!
E lá se foram, Alice e o cineasta, o fusquinha e a câmera, carnaval adentro. Zito e Agenor? Tenho quase certeza de que aquelas duas melindrosas que vi ontem entrando no Scala pro baile do Gala Gay eram eles.

sábado, 3 de julho de 2010

DROMEDÁRIO

Esta noite sonhei com um dromedário. Dromedário é aquele que tem uma ou duas corcovas? Vou ao Google, que coisa sem graça virou essa facilidade de conseguir respostas, meio que leva a gente a só se fazer essas perguntas de respostas fáceis. O dromedário é parente do camelo, isso eu já sei, de que me adianta tanta tecnologia pra me dizer coisas que eu já sei, irritante essa ampulheta virando virando, vou trocar por algo mais divertido, quem sabe um casal fazendo sexo me distraia da irritação que é esperar tanto tempo por uma resposta tão boba, eu devia era estar fazendo algo mais produtivo. Sexo, por exemplo, ou escrevendo alguma coisa que tivesse a ver com o mote do clube de hoje. E essa página que não abre? Só o que eu tenho até agora é que o dromedário é da família do camelo. E isso não serviria de inspiração nem pra Kafka, quanto mais pra mim. Começo a desconfiar que o Google também não sabe quantas corcovas tem o dromedário. Por que é que sempre que escrevo Google o editor de texto coloca a primeira letra em maiúscula? Coisa estranha demais isso... Sei lá, mas tem horas que me sinto meio fora desse mundo maluco, com caixas postais eletrônicas e o meu dedo doendo sempre que tento usar uma caneta pra escrever. Não é a toa que tem tanta gente tantan por aí. Até que enfim! Não sou dada a acreditar em coincidências, mas a única página que consigo abrir é uma chamada Mundo Estranho. Concordo. É estranho pacas. Descubro que o período de gestação do dromedário é de 12 meses e me pego pensando se doze meses de um dromedário é igual a doze meses de gente, e me lembro que o tempo é uma convenção e que o dromedário deve cagar e andar se leva doze, vinte ou trezentos meses gestando outro dromedário. Outra coisa que pra ele não deve fazer a menor diferença é o aspecto muxibento de sua corcova. Ô troço feio, viu? E pensar que aquilo é gordura pura. Se dromedário fosse gente, já tinham arrumado um jeito de lipoaspirar a corcova. Ia se fuder, porque a corcova é que garante a reserva energética dele. Ela, e os 57 litros de água que consegue beber, é que o permitem andar longas distâncias. E pensar que são herbívoros. Mas não são nada magros. Que nem vaca. Já viu vaca magra? E só come folha. Se dromedário fosse gente, isso de beber muita água, caminhar pra caralho e comer só mato ia ser legal. Eles iam ser magrinhos. Descobri também que o dromedário atinge a maturidade sexual aos três anos de idade e sua expectativa de vida chega aos cinqüenta. Isso lhe garante uns 47 anos de sexo de qualidade. Considerando que com 47 anos ainda tem homem que desconhece o poder que o sexo oral tem de apimentar um sexo meia bomba, acho que se dromedário pudesse escolher, ia preferir continuar sendo dromedário mesmo.
Droga! Minha conexão caiu. Ah, antes que eu me esqueça: o dromedário tem apenas uma corcova. Então eu sonhei foi com o camelo.

sexta-feira, 26 de março de 2010

AMOR (IN)CONDICIONAL

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...e se eu parasse de te procurar pelos cantos, de esperar que você ligue, de tentar entender o que significa esse silêncio que jorra da sua boca? E se eu me cansasse de tudo que você não me disse, das frases interrompidas no meio, do seu jeito de passar manteiga no pão? E se eu deixasse de tentar te entender e me pegasse de frente para o espelho, aliviada por não te ter? E se eu, por um momento apenas, sentisse que não te amo, não te quero, que não estou nem aí para o que você pensa, para como você passou o dia ou se você está vivo ou morto? E se eu, num arroubo de violência e vingança, arrancasse seus dedos no momento exato em que caminhassem pelas minhas costas?

...e se eu começasse a te achar pelos cantos, entender o seu silêncio, ficar curiosa por tudo que não foi dito? E se eu, me olhando no espelho embaçado do banheiro, conseguisse enfim te decifrar? E se eu te amasse como se ama um filho, um amante, um amigo? Se te desejasse como bicho, vasculhasse o seu corpo em busca de marcas e gostos, esfregasse o seu rosto até a sua barba mal feita ferir o meu?

...e se eu um dia aparecesse diferente, sem os jeans surrados, de salto alto, cabelos escovados e unhas pintadas de vermelho? E se eu queimasse os livros que lemos juntos, as cartas que nunca te mandei, apagasse os seus passos da cozinha? E se eu parasse de te esperar chegar junto com o cheiro da chuva?

...e se eu desistisse de você, não te reconhecesse, não me precipitasse, não te procurasse?
...e se eu conseguisse apagar de mim as memórias de você?
...e se eu não te fantasiasse?

Será que eu continuaria te querendo?
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Desculpa pra Beber


Então, gente. Pra quem ainda não sabe, no último sábado eu, Arnaldo Costa, Luiz Teixeira e Mano Marques disputamos o samba com que o bloco Desculpa pra Beber vai sacudir o Humaitá na terça feira de carnaval. A disputa foi acirrada, os outros sambas estavam muito bons, mas, justiça seja feita, se é pra sair por aí sacolejando corações, não tem pra ninguém!!!

A letra:

SACUDINDO O HUMAITÁ

Vem cantar
Que a magia já está pra começar
Vem dançar
Que a gente samba até o dia clarear
Vem meu bem
Ajuda a gente a sacudir o Humaitá
Então vem
Que é no Desculpa pra Beber que eu vou te amar

Vamos nos beijar
Fazer pulsar os corações
Vem me abraçar
Aqui no Largo dos Leões

Fazer fantasia
Comemorar a ilusão
Desculpa pra esquecer
Cueca, meia e apagão

No reino do rei Arruda
É um tremendo
Deus nos acuda
É um sacrilégio, é uma zona
Até Jesus anda pegando a Madonna

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Lá do alto

Lá do alto, a equilibrista olha pela última vez: a platéia e a corda transparente. Sabe que, quando começar a andar na corda bamba, seu mundo será: seu corpo, a sombrinha lilás, a corda e o picadeiro vazio. Lá de baixo, seus pés parecerão: duas pequenas pétalas flutuando no ar. A equilibrista, com sua roupa rosa de bailarina, respira: atenta. O ar chega finalmente aos seus pés: flutua. Ela sabe: não pode avançar demais, tampouco parar. O suor destila: medo e certeza. A platéia: não respira, não pisca. A mulher gorda: prefere não ver, o que quer que seja, prefere não ver. O filho: aperta o seu braço. A equilibrista bailarina é: firme. É forte. O filho solta o braço da mãe, que olha para a bailarina, que limpa o suor, que olha a platéia, que suspira de alívio admirando a bailarina, que recebe os aplausos do adorável público.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Em 2010 desejo que vocês

encontrem os amigos pela rua pra ficar conversando horas em pé na esquina, contando as últimas fofocas
achem notas esquecidas nos bolsos das suas calças jeans
aceitem convites inusitados
façam convites inusitados
conheçam muita gente nova e bacana
façam um trabalho do qual se orgulhem, mesmo que as pessoas em volta achem uma bobagem
desenvolvam a auto percepção
se conheçam mais e se gostem mais cada vez que descobrir algo novo sobre vocês
amem os seus defeitos. Como diz Clarice, nunca se sabe onde está apoiado o edifício inteiro
emagreçam todos os quilos desejados
aprendam algo totalmente novo
consigam usar alguns dos seus dias pra não fazer absolutamente nada
aprendam a meditar
acreditem que entre o céu e a terra existem mais coisas do que possa supor a nossa vã filosofia
fiquem mais espertos
fiquem mais saudáveis
não precisem tomar antidepressivos
riam mais, muito mais, de vocês mesmos
acreditem que uma grande mudança começa com um pequeno passo
naufraguem às vezes, para saber onde estão os recifes
comemorem o seu aniversário e me convidem :)
arrumem um namorado/namorada bem bacana
tenham paciência com o que demora
assistam a muitos filmes bons
sejam inteiros em tudo o que fizerem

domingo, 20 de dezembro de 2009

2010

Arrependimento é a qualidade dos hesitantes sem êxito. É a festa a que não fui, os discos de vinil que não guardei, os olhares que não troquei. É a flor esquecida no canto, os textos que não escrevi, os copos de água que não tomei. As histórias que não ouvi. Arrependimento é passado presente, é presente sem rosto, é sentimento sem futuro. Promessa para 2010: arrepender-me menos.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A PRIMEIRA MENTIRA CABELUDA DE QUE SE TEM NOTÍCIA NA HISTÓRIA DO MUNDO, SEGUIDA DA PRIMEIRA DESCULPA ESFARRAPADA (parte III)

Condenado a vagar errante pelo mundo montado em um jumento após o assassinato de seu irmão abel, caim segue caminho. Até este momento, ele já havia passado por poucas e boas. Para falar a verdade, mais boas do que poucas, e era das boas horas gastas nos braços quentes de lilith que caim se lembrava quando, ao preparar-se para uma breve sesta, ouve uma voz de rapaz chamar pelo pai. Esse era ninguém mais ninguém menos que abraão, que naquele exato momento levava o inocente filho isaac para o sacrifício, conforme havia-lhe ordenado o todo-poderoso. Ora, todos concordamos que “o lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda”. Mas não. Não bastasse concordar em sacrificar o próprio filho, abraão ainda o enganava, garantindo que encontrariam alguma vítima para o sacrifício quando chegassem ao lugar combinado.

“Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com a sua língua bífida, que, neste caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes.” (Caim, de Saramago)

Amarrado o filho sobre a lenha, abraão já empunhava a faca para cortar-lhe o pescoço, quando a mão de caim segura a do velho, ordenando que solte o rapaz. Na verdade, isaac teve foi uma sorte danada porque o anjo que deveria salvá-lo chegou atrasado, mas com o discurso na ponta da língua, ordenando que abraão soltasse o filho, pois já havia provado ser obediente ao senhor, iniciando um blá blá blá que caim logo cortou, fazendo-o reconhecer que, se fosse depender dele, o rapaz a esta hora já estaria degolado.

“O anjo fez cara de contrição, Sinto muito ter chegado atrasado, mas a culpa não foi minha, quando vinha para cá surgiu-me um problema mecânico na asa direita, não sincronizava com a esquerda, o resultado foram contínuas mudanças de rumo que me desorientavam, na verdade vi-me em papos-de-aranha para chegar aqui, ainda por cima não me tinham explicado bem qual destes montes era o lugar do sacrifício, se cá cheguei foi por um milagre do senhor, Tarde, disse caim, Vale mais tarde do que nunca, respondeu o anjo com prosápia, como se tivesse acabado de enunciar uma verdade primeira, Enganas-te, nunca não é contrário de tarde, o contrário de tarde é demasiado tarde”, frase que fez o anjo resmungar “mais um racionalista” e continuar o seu discurso encomendado. (Caim, de Saramago)

Salvo o rapaz, caim içado à categoria de falso anjo, o anjo verdadeiro sai “coxeando da asa direita, com um mau sabor de boca pelo fracasso de sua missão.” Tenho cá pra mim que ele entrou na loja de eletrônicos mais próxima que encontrou e adquiriu o primeio gps de que se tem notícia na história do mundo. Por outra dessa é que ele não podia passar...

domingo, 25 de outubro de 2009

O PRIMEIRO ACESSO DE CIÚMES DE QUE SE TEM NOTÍCIA NA HISTÓRIA DO MUNDO (parte II)

No dia seguinte, a pedido de azael, eva retorna às portas do éden com adão. Azael então lhes dá umas dicas de sobrevivência, revela que eles não são os únicos no mundo e lhes mostra o fogo e como se utilizar dele para atrair atenção dos demais e conseguir seguir caminho com eles. Na despedida, eva, grata, chora nos ombros de azael.

“Deste-lhe alguma coisa em troca, Que coisa a quem, isso disse eva, sabendo muito bem a que se referia o esposo, A quem havia de ser a ele, a azael, disse adão omitindo com cautela a primeira parte da questão.” (Caim, de Saramago)

Coitado do adão, nem desconfiava que no dia anterior a espada com a qual o querubim protegia a entrada do paraíso silvara “com mais força como se tivesse recebido um súbito afluxo de energia” ao tocar o seio de eva. Como também nunca passou pela sua cabeça que eva colocara suas mãos sobre a de azael, apertando-a de leve contra o seio.

Se tem ou não fundamento a desconfiança de adão, nunca saberemos. O fato é que abel nasceu louro e de faces rosadas, "como se fosse filho de um anjo, ou de um arcanjo, ou de um querubim, salvo seja."