quarta-feira, 2 de março de 2011

HISTÓRIA DE AMOR E CARNAVAL NO BOTECO BARANGAL



Carnaval, ah, o carnaval! Delírio e desgraça. Quem nunca perdeu ou ganhou um amor durante o carnaval que atire a primeira lata de cerveja. Para mim, que eu já estou em ritmo de folia. O coração esquenta e lá vou eu, skindô skindô, pelas esquinas do Rio. E nessas andanças a gente vê é coisa, viu? Outro dia, num boteco ali na Cardeal Dom Sebastião Leme, no bairro de Fátima, o tempo fechou. Pelo que entendi, parece que Agenor tinha dado um perdido em Alice no dia anterior. Alice, que é esperta e sabe que a vingança é um prato que se come quente, acompanhado de uma cerveja bem gelada e de um cara mais gostoso do que o otário com quem você ainda estaria se ele não tivesse feito merda, logo conclamou Zito, pra deixar bem claro que com ela não, violão.
- Que merda é essa? Onde você vai? Volta, Alice! – esbravejava Agenor lá do fundo do bar.
- Voltar pra quê? Esse ano não vai ser igual àquele que passou, ah, não vai ser não!!!
- Vem, bagunça o meu coreto, vem satisfazer esta rola preguiçosa, vem que esse é bom, mas ninguém sabe, só você. Vem, sorri pra mim preu me lembrar que simpatia é quase amor, mesmo que você esteja me odiando agora. Eu sei, eu sei que o nosso romance anda meio morno, mas é que também a gente nem muda nem sai de cima, né? Eu sei, você tem razão, ontem eu cheguei em casa com o maior bafo da onça, mas Ih!, é carnaval, amor. Além disso, eu te avisei, lembra? Meu bem, volto já!!! Gritei lá do portão, mas você estava numa ressaca só, acho que nem me ouviu. Quem mandou? Meu amor, quem num guenta bebe água. Você me conhece, eu não posso ouvir uma banda passar que já quero ir atrás. Quem manda ficar em casa, enchendo a cara? Você concentra, concentra, mas não sai. Na hora agá, você rói a corda e diz: me deixa, quero ficar no meu kantinho. E pra mim carnaval é diversão, é brincadeira, é tão bom que se melhorar, afunda e eu quero é me acabar.
A essa altura do campeonato o bar inteiro já tinha parado o que estava fazendo para prestar atenção no Agenor. Aquilo ia dar forrobodó, ah, se ia! Um assunto prato cheio pro samba do bloquinho dos amigos que o grupo da mesa do fundo vinha tentando compor há duas semanas. Alice? Pediu uma gelada, a mais gelada que você tiver, Confete, que eu tô fervendo por dentro, e uma porção de azeitona sem caroço! Agenor? Coitado. Cheguei a sentir pena dele. Só não me rolaram lágrimas face abaixo porque o teor alcoólico ainda não dava pra isso. Num lamento, Agenor ainda implora.
-Vem meu bem! Você sabe que quando você me xupa mas não baba eu vivo o céu na terra. Faz isso comigo não. Vem, vem só pra ver o que vai dar.
Antes de se atracar com o Zito, um negão maravilhoso fantasiado de São Jorge, espada em riste, que vem encontrá-la na porta do bar, Alice manda pra Agenor um beijinho soprado com a pontinha do dedo. Cruel, cruel.
- Imaginou? Agora amassa – ordena Alice a Zito, que a essas alturas já segurava a nega pela cintura carregando ela num dois pra lá, dois pra cá tão suingado que derretia o coração das meninas ali presentes. O meu inclusive.
- Imprensa que eu gamo, sussurra Zito, tascando-lhe um beijo no pescoço de deixar o mais devasso da cardeal sem graça.
Agenor ainda pensou em colocar as barbas de molho, deixar a raiva passar. Carnaval é assim mesmo. O problema é que estava prestes a ter uma síncope e, se não reagisse, e rápido, era capaz de sofrer uma parada cardíaca ali mesmo. Não, não passaria o resto do carnaval num leito de hospital. Tampouco era a hora de dar a Zito o título de rival sem rival. Nem por Alice. Como tudo é desculpa pra beber, ele dá um gole na gelada, pra tomar coragem, e sai correndo na direção dos dois pombinhos tal qual uma besta descontrolada. Na porta do boteco ele tropeça, escorrega, mas não cai. Agenor alcança os dois bem na hora que Alice sussurra no ouvido de Zito: vem, meu bem, vem ni mim que eu sou facinha.
- A coisa tá preta pro teu lado, Zito! O negócio tá feio e teu nome tá no meio, cara!
- Calma, Agenor. Ninguém é de ninguém. Ainda mais no carnaval. Além do mais, eu to no recreio, rapaz.
Zito deu um último gole na cerveja e puxou Alice mais pra perto. Os amigos da esquina se aproximaram, divididos entre a turma do deixa disso:
- Toca pra subir, Agenor. Regula mas libera, cara. Carnaval é assim mesmo e você sabe disso. Ou pensa que ninguém te viu ontem, com um sorriso de criança estampado nessa cara sem vergonha depois que voltou da folia? Acho melhor tu ficar pianinho. Não mexe que fede, cara!
...e a turma do pode vir que tem:
- Agenor, se quiser a gente amassa esse negão, escangalha ele de vez. É tudo nosso, tamo junto nessa, camaradinha. O grupo é pequeno, mas vai crescer, é só você chamar. Se tu fô, eu vô.
Agenor, pobre Agenor. Zito tinha o dobro do tamanho dele, Alice pouco estava se incomodando com aquela cena, só tinha olhos pra espada do negão, e o bar inteiro parecia torcer pro pior acontecer. Agenor sentou-se na beira da calçada e … chorou. Chorou feito criança. Estava inconsolável.
- Antigamente era melhor. Ela ficava o carnaval todo quietinha, rezando, limpando a casa, cozinhando macarronada pra curar o meu porre, rezando ao pé da imagem e lustrando o suvaco do cristo. Eu vestia minha camisinha listrada, saía por aí e ela nem ligava. Chegava no dia seguinte e ela estava na maior alegria. Sem ressaca, porque naquele tempo ela não bebia. Não sei o que aconteceu. Esse ano a nêga desandou. Desde o início do carnaval que ela deita mas não dorme, fica que nem pipa avoada, só caminha pela casa, pra lá e pra cá, e não sossega enquanto o bloco não arrasta ela.
Alice, que não aguentava mais ouvir aquela lenga lenga, chegou cutucando atrás, pra ver se o cara se tocava:
- Agenor, tu só tá piorando as coisas, rapaz. Deixa a língua no varal que é a melhor coisa que tu faz. Chorando desse jeito tu até espanta neném. Não tem vergonha não? Se não aguenta, por que veio?
- Vim porque você não presta mas eu gosto de você, sua vaca!
Zito, que até agora só estava assistindo a cena, virou bicho.
- Tá na frente eu empurro! Sai todo mundo! Agora tu vai pedir desculpa pra minha mulher.
Lá de dentro do bar alguém grita:
- Confete, manda um chopp na pressão. Alta!, que a coisa aqui tá ficando quente!
Ah, chamar Alice de “minha mulher” foi a gota dágua. Agenor até hoje não sabe de onde tirou tanta força, mas o fato é que mandou um soco de direita tão bem mandadinho no meio do nariz do Zito que o negão cambaleou e caiu no chão. Foi um Deus nos acuda. O pessoal da mesa do fundo veio pra porta do boteco. Cachaça, mendigo conhecido da área, ordenava ao seu fiel companheiro: pega, Rex!, pega! mas Rex já é cachorro cansado e não tem forças nem pra correr atrás do próprio rabo. Um grupo de adolescentes gritava porrada! porrada! Lá dentro do bar Confete andava de um lado pro outro com um chapéu na mão, aos berros: façam suas apostas!
Façam suas apostas!
Alice? No meio da confusão apareceu um carinha fantasiado de JR Arruda, cheio de dinheiro falso enfiado em uma cueca maneira, com uma ideia na cabeça e uma câmera na mão, filmando o bafafá. Quando o cara viu Alice retratada nas lentes da sua câmera, implorou:
- Me beija, vai? Me beija que eu sou cineasta. Vem brincar comigo que se dé certo, a gente sai.
Agenor e Zito, atracados na calçada, só notaram o que estava acontecendo quando ouviram Alice gritando pras amigas da pracinha, de dentro de um fusquinha 1600:
- EMPURRA QUE PEGA!!!
E lá se foram, Alice e o cineasta, o fusquinha e a câmera, carnaval adentro. Zito e Agenor? Tenho quase certeza de que aquelas duas melindrosas que vi ontem entrando no Scala pro baile do Gala Gay eram eles.

6 comentários:

Cecilia disse...

Muito legal Anacraudia.
Faltou o Ta Pirando, pirado, pirou. É o bloco do Pinel - o único que eu cheguei perto este ano.
Só fico imaginando por onde anda essa alma nesses dias de folia...
bjos

Michelle Glória disse...

Adorei!

Final melhor impossível!!

Alice arrasou!!

risos

Pipa. Agora eu era o herói. disse...

Finalmente a encontrei. Gostaria de dizer que és motivo de júbilo pelo que comporta de sensibilidade. Alguns de seus textos me arrancaram a paz e também o sono. Não trocamos nenhuma palavra até hoje, mas é como se já o tivéssmos feito há muitos anos. Diga-me reconheces minha voz?

Te abraço com emoção.


Pipa.

blog da izabelle valladares disse...

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blog da izabelle valladares disse...

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Paula Nogueira disse...

Adorei!, Nacrau!!! Vc é um talento!!! Delícia seu conto de carnaval! bjks, Paula