quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A PRIMEIRA MENTIRA CABELUDA DE QUE SE TEM NOTÍCIA NA HISTÓRIA DO MUNDO, SEGUIDA DA PRIMEIRA DESCULPA ESFARRAPADA (parte III)

Condenado a vagar errante pelo mundo montado em um jumento após o assassinato de seu irmão abel, caim segue caminho. Até este momento, ele já havia passado por poucas e boas. Para falar a verdade, mais boas do que poucas, e era das boas horas gastas nos braços quentes de lilith que caim se lembrava quando, ao preparar-se para uma breve sesta, ouve uma voz de rapaz chamar pelo pai. Esse era ninguém mais ninguém menos que abraão, que naquele exato momento levava o inocente filho isaac para o sacrifício, conforme havia-lhe ordenado o todo-poderoso. Ora, todos concordamos que “o lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda”. Mas não. Não bastasse concordar em sacrificar o próprio filho, abraão ainda o enganava, garantindo que encontrariam alguma vítima para o sacrifício quando chegassem ao lugar combinado.

“Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com a sua língua bífida, que, neste caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes.” (Caim, de Saramago)

Amarrado o filho sobre a lenha, abraão já empunhava a faca para cortar-lhe o pescoço, quando a mão de caim segura a do velho, ordenando que solte o rapaz. Na verdade, isaac teve foi uma sorte danada porque o anjo que deveria salvá-lo chegou atrasado, mas com o discurso na ponta da língua, ordenando que abraão soltasse o filho, pois já havia provado ser obediente ao senhor, iniciando um blá blá blá que caim logo cortou, fazendo-o reconhecer que, se fosse depender dele, o rapaz a esta hora já estaria degolado.

“O anjo fez cara de contrição, Sinto muito ter chegado atrasado, mas a culpa não foi minha, quando vinha para cá surgiu-me um problema mecânico na asa direita, não sincronizava com a esquerda, o resultado foram contínuas mudanças de rumo que me desorientavam, na verdade vi-me em papos-de-aranha para chegar aqui, ainda por cima não me tinham explicado bem qual destes montes era o lugar do sacrifício, se cá cheguei foi por um milagre do senhor, Tarde, disse caim, Vale mais tarde do que nunca, respondeu o anjo com prosápia, como se tivesse acabado de enunciar uma verdade primeira, Enganas-te, nunca não é contrário de tarde, o contrário de tarde é demasiado tarde”, frase que fez o anjo resmungar “mais um racionalista” e continuar o seu discurso encomendado. (Caim, de Saramago)

Salvo o rapaz, caim içado à categoria de falso anjo, o anjo verdadeiro sai “coxeando da asa direita, com um mau sabor de boca pelo fracasso de sua missão.” Tenho cá pra mim que ele entrou na loja de eletrônicos mais próxima que encontrou e adquiriu o primeio gps de que se tem notícia na história do mundo. Por outra dessa é que ele não podia passar...

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