quinta-feira, 22 de outubro de 2009

A PRIMEIRA BRIGA CONJUGAL DE QUE SE TEM NOTÍCIA NA HISTÓRIA DO MUNDO (parte I)

Expulsos do paraíso, sem ter para comer nem o pão que o diabo amassou, adão e eva sofrem à míngua. Não há água e o deserto é sem fim. Eva tem a brilhante ideia de ir ter com o querubim azael, cuja tarefa imposta pelo grande era guardar os portões do jardim do éden para que aqueles ingratos nunca mais retornassem, e ver se conseguia alguma coisinha pra mastigar. Afinal, o que tinha a perder? A situação não podia ficar pior do que estava. Descrente, adão disse a eva que fosse então sozinha e se preparasse para uma baita decepção. E é aí que a desavença se instala.

“Estás louca, Melhor louca que medrosa, Não me faltes ao respeito, gritou adão, enfurecido, eu não sou medroso, Eu também não, portanto estamos quites, não há mais que discutir, Sim, mas não te esqueças de que quem manda aqui sou eu, Sim, foi o que o senhor disse, concordou eva, e fez cara de quem não havia dito nada.”

Caim, de José Saramago, é recheado de passagens assim, deliciosas, engraçadas, irônicas, como a que descreve como o umbigo de eva ficou muito melhor do que o de adão, moldado primeiro, iniciando-se então “uma nova era na estética do corpo humano sob o lema consensual de que tudo nele é melhorável”.

GENIAL!!!!

quarta-feira, 21 de outubro de 2009


Se de todos os sonhos que tenho
Pudesse um sonho me sonhar e não eu a ele, fico pensando
O que será que esse meu sonho sonharia?
Sonharia que sou uma princesa e vivo a sonhar em um castelo feito de ouro e fontes transparentes?
Ou que sou uma pessoa que vive a se lamentar pelos sonhos que não sonhou?
Será que me sonharia sonhando, levando-o a sonhar consigo mesmo?
Talvez sonhasse comigo acordando e lembrando-me dele.
Fico pensando
Se o meu sonho me sonhasse, o que será que ele sonharia?

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A mesma noite (parte IV)

“Uma dor que a urgisse como o sal da água benta”. Betinha invade a minha sala com um pedaço de papel na mão, recitando aquela frase que havia encontrado anotada num pedaço de papel caído embaixo da cama. Como boa detetive que sou, disse, sei que isso só pode ter sido deixado ali na noite passada, e me passou o papel. Vi que a letra era dela e perguntei se ela não a reconhecia. Mas é claro, é a minha letra, espantou-se com a minha pergunta, como se fosse a coisa mais normal do mundo uma pessoa invadir a sua casa lendo uma frase sem sentido escrita num pedaço de papel, conjeturando sobre quando aquilo teria sido deixado embaixo de sua cama mesmo sabendo que a letra era dela própria. E me lembrei também com o que eu sonhei, ela falou, vigiando com o canto do olho a minha reação. Betinha tinha um caderno de sonhos guardado a sete chaves. Contava que tinha, só de sonho, mais de setenta páginas digitadas. Noite passada sonhei que o mar havia transbordado e me levado junto. Um turbilhonamento leve, de maré baixa, de preenchimento, me envolveu e foi então que escrevi: “... uma dor que a urgisse como o sal da água benta”. Ela me pediu papel e caneta e corrigiu: “... uma dor que a ungisse como o sal da água benta”. Acho que assim fica melhor. O que acha? Antes de eu conseguir achar alguma coisa, ela toma o papel da minha mão e continua: “À noite todos os gatos são gatos mesmo. Sou preguiçosa e às vezes preciso de um beliscão”.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

O dia seguinte (parte III)

Betinha ria às gargalhadas, encurvada, uma mão segurando a barriga, a outra se apoiando na pia pra não cair. Ela sempre ria desse jeito. Não sei por que caí na besteira de dizer que ela tinha me olhado como se eu fosse o seu dedão do pé. Depois de me pedir pela quinta vez de-ta-lhes do seu ataque de sonambulismo da noite passada, aonde eu me sentei? qual era a minha posição? o que eu disse? e aí, o que aconteceu depois?, foi nesse “e aí o que aconteceu depois” que ela começou a rir e não parou mais. Quando conseguiu, perguntou: de onde será que tirei isso, hein, meu dedãozinho do pé? Ela sempre ria daquele jeito e eu acabava rindo junto.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

E a manhã nasceu azul... (parte II)

Outro dia Betinha me apareceu de madrugada com um copo dágua, um espelho e um broto de flor. Está assim há meses, disse, num lamento, para em seguida perguntar: morre o que não vive? E eu lá sei?, respondi, pegando o espelho e tentando localizar o cabelo que espetava meu dedo quando eu alisava o queixo. Eu hein, Betinha, você parece uma assombração. Lá isso são horas? Mas ela já estava sentada com os pés em cima da poltrona, naquela posição que ela gostava de ficar e que eu não sei descrever, mas vou tentar. Ela estava sentada com os pés em cima da poltrona, as pernas dobradas para o lado, a ponta do roupão deixando desprotegidos apenas os dedos. Me aproximei e ela continuou olhando-os, vidrada. Logo vi: outro ataque de sonambulis... quero confessar uma coisa, ela disse, quase gritando, sem tirar os olhos do dedão do pé: a melancolia é o mais longe que consigo ficar da depressão e talvez o mais perto que tenha chegado de mim mesma. Colocou o copo dágua e o broto em cima da mesinha de cabeceira. Outra: quero me livrar dessa minha mania de lustrar as bordas com o único objetivo de deixar eternamente o núcleo intacto. Quero me livrar dessa mania de medo. Descobri que é na verticalidade de um mergulho que a água respinga. É nessa verticalidade que a onda se forma. Olhou para mim como se eu fosse o seu dedão do pé, levantou-se, abriu a porta e foi embora. E a manhã nasceu azul.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Depois eu é que sou esquisita...(parte I)

Outro dia Betinha me disse que escrever é um ato de liberdade, ainda mais num país onde ninguém lê. Perguntei pra ela se aquilo era bom ou ruim. Ela me veio com um “você é esquisita” e mudou de assunto. Disse que estava a procura de... E eu ali, esperando, só que ela não terminou a frase, mas me disse que não cabiam reticências, encarando a minha cara de... Eu não consigo definir a cara que fiz a não ser com reticências, que pra Betinha são o último suspiro, do qual ela ainda está longe. E me disse que escreve com medo e esperança que a sua escrita sirva para algo. Esperança eu entendo, mas medo? Depois eu é que sou esquisita.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

O PIANISTA

Meu corpo começou a urrar dentro do smoking e o ar condicionado não era suficiente para interromper o suor que já ia ensopando o colarinho e as costas da camisa. Interrompi o concerto no começo do último movimento, tirei o paletó, afrouxei a gravata, perguntei se a platéia estava com calor também. Não esperava que houvesse resposta. Tampouco a tentativa de minimizar o constrangimento deu certo. Na terceira fila, no lugar onde, em todos os concertos, sempre se sentava, minha mulher controlava-se para não explodir em lágrimas. Deu certo: antes de se levantar, vi apenas uma escorrendo de seus olhos.

Eu sabia que algo estava errado, mas levei algum tempo até perceber que aquela já não era mais a vida que eu queria pra mim. O narrador da minha história havia me rebaixado a um papel menor e me transformado num mero coadjuvante. Eu não queria mais nada daquilo. Eu amava a música e queria tocar para as crianças, os velhos, os pobres, para todos aqueles que gostassem da música por ela mesma e não pelo glamour que envolvia as apresentações, sempre cheias de gente importante e influente.

O que havia de errado com a minha felicidade? Era um pensamento paradoxal, eu sabia, mas não foram poucas as manhãs em que eu parava de ensaiar, sentado ao piano de cauda no meio da sala com vista para a mata atlântica, um cheiro gostoso de café fresquinho vindo da cozinha planejada, para me perguntar isso. Eu tinha tudo o que um homem poderia acreditar como essencial para ser feliz, mas eu não era. O que havia de errado? E onde estava o erro?

No dia do concerto, descobri depois, o que eu decidi fazer foi tomar de volta a caneta daquele narrador ensandecido, que parecia se divertir organizando da forma mais idiota os elementos da minha vida. No roteiro havia talento, amor, dinheiro, amizade, consideração, mas estava tudo mal arrumado, ocupando lugares que não os que, só agora eu sabia, deveriam ocupar. Mas, onde eram esses lugares? Em mim, mas onde exatamente?

A cadeira vazia da terceira fila me desafiava a manter o equilíbrio necessário para concluir a apresentação e testava a força da decisão de ser aquela a última que eu faria naquele teatro, para uma plateia que me olhava como se eu fosse um animal num zoológico. Aplaudiram quando anunciei, depois de tirar os sapatos, que concluiria o concerto. Queriam me ouvir tocar ou estavam ali apenas para cumprir o que se esperava de uma aristocracia tardia? Prestavam atenção às notas que saíam do piano, dos violinos, dos violoncelos ou estavam apenas se fazendo notar pelo seleto grupo que podia comprar o ingresso para um concerto com Rodrigo Calvaccio ao piano? Que sociedade é aquela, em que a felicidade é tão maior quanto menor a quantidade de pessoas com as quais compartilhá-la? Que prazer é esse, medido por índices tão aquém dos que eu sempre acreditei ser os que realmente me trariam a felicidade? Eu não tinha paz de espírito. Meu corpo, apesar de jovem, curvava-se com o peso daquelas mal ajambradas idéias de prazer.

sábado, 3 de janeiro de 2009

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Instruções gerais (servem também para roupas)

Use sabão macio.
Evite máquinas demais.
Salgue um pouco, pra manter o colorido.
Varie entre o quente, o muito quente, o morno e o frio.
O excesso pode causar atrito e desbotamento. Evite-o.

Seja o que for, nunca deixe de molho por mais de um dia.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008



Ontem fiquei olhando a chuva cair e tudo o que eu tinha era uma fotografia despedaçada do pai que não conheci e uma gota que caía da calha do telhado de uma casa onde nunca morei. Uma brisa fresca, uma formiga, uma folha e uma gota furando o chão, desfazendo-se por entre os grãos da terra que se iam afastando ao seu toque sutil. Era o que eu podia pegar e dizer: isso é meu. É que minha história é feita de ausências. A não ser pela foto e pela chuva.